
A desinformação na saúde pode comprometer decisões sobre tratamentos, vacinação e prevenção de doenças. O relatório "Raio-X da Desinformação em Saúde", publicado pela Agência Lupa, identificou que 87,3% de 764 conteúdos virais analisados entre março de 2017 e junho de 2026 eram falsos. O levantamento, produzido com apoio da Afya, evidencia os desafios para conter informações que podem colocar a população em risco.
Entre as estratégias mais recorrentes para conferir credibilidade a alegações falsas estão o uso de falsas autoridades médicas ou científicas, presente em 21,6% dos casos; a linguagem alarmista, com 17%; e a distorção de estudos e dados, identificada em 15,7%. Essas abordagens exploram a confiança da população nos profissionais de saúde e na ciência, além de recorrerem ao medo para influenciar comportamentos.
Segundo Fabiana Attié, advogada especialista em direito médico, o problema não deve ser tratado apenas como uma questão de comunicação. "Quando uma informação falsa interfere na decisão de um paciente, ela deixa de ser apenas um boato e passa a representar um risco concreto à saúde. É grave usar o prestígio da medicina ou a aparência de evidência científica para induzir alguém ao erro. A população precisa saber diferenciar orientação profissional de conteúdo que apenas tenta parecer confiável", afirma.
A circulação desses conteúdos em aplicativos de mensagens e redes sociais também é um ponto de atenção. O WhatsApp apareceu com frequência entre os canais associados às verificações da Lupa, seguido pelo Facebook e pelo Instagram. Na avaliação de Fabiana, o enfrentamento exige responsabilidade de quem produz e compartilha conteúdo, além de uma relação de confiança entre pacientes e profissionais.
"Não podemos normalizar a divulgação de promessas de cura, teorias sem evidência ou recomendações que incentivem as pessoas a abandonar tratamentos. Quem compartilha esse tipo de conteúdo também precisa entender que pode contribuir para decisões prejudiciais. Em saúde, informação irresponsável tem consequências reais", explica Attié.
A advogada defende que a resposta à desinformação inclua orientação acessível e diálogo com os pacientes, sem substituir a avaliação individual por recomendações genéricas encontradas na internet. Dúvidas sobre vacinas, medicamentos, suplementos ou tratamentos devem ser discutidas com profissionais habilitados, e mudanças na conduta terapêutica não devem ser feitas por conta própria. A checagem de informações e a explicação clara das evidências são medidas importantes para reduzir riscos e evitar danos.
"O paciente tem direito a receber informações corretas e a compreender os riscos e benefícios das decisões que envolvem sua saúde. Isso exige compromisso com a verdade, respeito à ciência e responsabilidade na comunicação. Combater a desinformação não é restringir dúvidas ou questionamentos, mas impedir que alegações falsas sejam apresentadas como orientação segura", conclui Fabiana.
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